O Fim do Mundo

13 agosto 2017

Ontem eu sonhei com o fim do mundo.
Talvez eu tenha algum problema com o planeta afinal de contos, pois eu já havia sonhado isso, o mesmo sonho. Nele, parecia um dia comum e tudo seguia a normalidade até algumas coisas começarem a acontecer; por exemplo, o céu estava azul demais e havia nele belíssimas manchas roxas como se as galáxias quisessem enfeitar o céu. Em meus sonhos, o céu frequentemente toma cores inesperadas.
Porém, eu não sabia que era um sonho. O que é raro, pois eu geralmente sei que estou sonhando.
Por isso, tudo seguia normalmente para mim até um avião cair próximo ao meu bairro. Eu o vi como se fosse arremessado  em direção ao chão, virar e rodopiar até atingir a terra. Senti a onda de choque em meu corpo. A visão do avião girando e caindo pelo céu roxo e azul foi assustadora, e todos saíram de suas casas e foram pra rua ver o que estava acontecendo. Parecia haver menos casas e meu bairro estava mais alto, então tínhamos uma excelente visão de tudo o que acontecia na cidade inteira.
É normal que eu sonhe com aviões caindo, e as quedas sempre são seguidas de catástrofes, bem, outras catástrofes. E dessa vez não foi diferente. Mas foi algo que me fez pensar. Porque não se seguiu como as outras catástrofes.

Depois que o avião caiu, após uns minutos, tivemos conhecimento de que o mundo acabaria. Não sei se foi pela TV, internet ou rádio, mas de algum modo bizarro, todas as pessoas da Terra sabiam que o mundo estava prestes a acabar. Era uma mera questão de minutos.
Um meteoro iria colidir conosco, mas se tratava de um meteoro “especial” pois ao colidir, toda a vida na Terra iria acabar instantaneamente. Não havia qualquer salvação. A única escolha era esperarmos.
Mas então aconteceu. As pessoas não choraram, não entraram em pânico ou desespero. Não se mataram ou roubaram, não se despediram, não clamaram a Deus. Não houve caos. Na verdade, elas ficaram emocionadas. Felizes. Elas ficaram num estado de êxtase que jamais haviam sentido, uma felicidade inenarrável e eu partilhava dela. Nunca em minha vida havia me sentido tão completa.
Os minutos se passaram e, de repente, todas as pessoas subiram nos telhados ou em lugares altos para verem e sentirem melhor. Elas começaram a contagem regressiva. Gritavam de antecipação como se esperasse um Ano Novo. Eu subi num telhado muito alto e eu tinha toda a visão da cidade, como num edifício. Eu também gritei com eles, feliz.
Eu sabia que todo o globo se juntava na contagem regressiva. Todos queriam a mesma coisa. Olhava para as pessoas a minha volta, chorando de felicidade.
E a contagem chegou a zero e o meteoro veio. Furou o céu roxo, bateu na terra e a poderosa onda de choque nos atingiu. Mas não morremos.
Depois do zero, estávamos da mesma maneira, em cima do telhado, com as mãos nos ouvidos, esperando. Percebemos que de fato, o mundo não acabara. A felicidade que envolvia o globo, acabou. A tristeza profunda nos tomou e nunca antes o planeta foi palco de tamanha tragédia. Senti ódio, repulsa. Nunca antes havia ficado tão machucada e vazia por dentro. Descemos dos telhados, recomeçamos a viver. Mas agora, mais tristes e mais desesperançosos.
Tive esse mesmo sonho duas vezes.
Quando acordei, não me lembrei dele imediatamente, só depois. Não sei se a sociedade está sem esperança e minhas ideias a respeito influenciaram meu subconsciente. Não sei se é algo íntimo, ou o simples fato de termos uma data de fim do mundo todo ano — a próxima, ao que parece, é em Setembro. Às vezes penso no fim do mundo, e às vezes, ao pensar nisso, não consigo imaginar que seria algo ruim. Em meu sonho, senti a maior felicidade, como se tudo de ruim fosse desaparecer instantaneamente, como se eu teria a maior liberdade do mundo, para então sentir a maior tristeza. Diferente de outros sonhos e outras tragédias, neste sonho, a tragédia foi viver.
Certa vez, ouvi a narrativa de um homem que sonhou que o mundo iria acabar e enquanto todas as pessoas entraram em pânico, ele ficou feliz e esperou o fim chegar enquanto tomava suco numa cadeira de praia. Talvez a perda de esperança ultimamente seja maior que outrora, e o conhecimento do fim seja não só aceito, como antecipado. Talvez se o dia chegar, eu esteja mais disposta do que estou ao pensar nisso racionalmente. Talvez a antecipação pelo fim, nos momentos finais, seja o que nos una, finalmente. Ou o medo do fim pode nos unir, mesmo que estejamos vivendo num mundo repleto de tragédias e infelicidade.
De qualquer maneira, o mundo continua sem o êxtase de esperar o fim em contagem regressiva.



Alana Campanha
Há milênios perdida nesta Terra, sobrevive de histórias feitas por seus habitantes. Ama escrever, criar tramas surreais e se aventurar pela literatura. Apaixonada por Doctor Who, sonha em viajar por esse mundo um dia desses.
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