Gato na Chuva | Hemingway

13 julho 2017
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Havia apenas dois americanos no hotel. Eles não conheciam nenhuma das pessoas por quais passaram na escada à caminho de seu quarto. O quarto ficava no segundo andar, de frente para o mar. Também ficava de frente ao jardim público e ao monumento de guerra. Havia palmeiras e bancos verdes no jardim público. Quando o tempo está bom, há sempre algum artista com seu cavalete. Os artistas gostavam de como as palmeiras cresciam e brilhavam as cores que o hotel tinha de frente ao jardim e ao mar. Os italianos vinham de um longo caminho para ver o monumento de guerra. Era feito de bronze e relanceava na chuva. Estava chovendo. A chuva caía das palmeiras das árvores. A água se amontoava em piscinas no caminho pavimentado. O mar se quebrava numa linha extensa na chuva, voltava para a praia e subia novamente para se quebrar numa linha extensa na chuva. Os motores dos carros já haviam partido da praça do monumento de guerra. De frente à praça, na entrada da porta, um garçom observava a praça vazia.
A esposa americana estava de pé à janela, observando. Do lado de fora, bem embaixo de sua janela, uma gata estava agachada, debaixo de uma das mesas verdes encharcadas. A gata estava tentando se encolher para que não ficasse encharcada.
— Vou lá para baixo e pegar aquela gatinha —, a esposa americana disse.
— Eu faço isso —, seu marido ofereceu da cama.
— Não, eu resolvo. A coitada da gatinha está tentando ficar seca debaixo de uma mesa.
O marido começou a ler deitado na cama, apoiado em duas almofadas ao pé da cama.
Não se molhe — ele disse.
A esposa foi para o andar de baixo, e o proprietário do hotel que estava de pé curvou-se para ela quando ela passou pelo escritório. Ele era um homem velho e muito alto.
II piove’ a esposa disse. Ela gostava do hoteleiro.
Si, Si, Signora, brutto tempo. Está um tempo muito ruim.
Estava de pé atrás de sua mesa, no canto mais longe da sala escura. A esposa gostava dele. Gostava do jeito sério com que ele recebia qualquer reclamação. Ela gostava de sua dignidade. Ela gostava do jeito que ele queria servi-la. Gostava do jeito que ele se sentia sendo um hoteleiro. Ela gostava de seu velho duro rosto e de suas mãos grandes.
Gostando dele, ela abriu a porta e olhou para fora. Chovia mais forte. Um homem numa capa de chuva estava cruzando a praça vazia. A gata poderia estar lá pela direita. Talvez ela poderia estar debaixo de algum telhado.
Enquanto ficava na passagem da porta, um guarda-chuva foi aberto atrás dela. Era a camareira que cuidava do quarto deles.
— Você não deve se molhar —, ela sorriu enquanto falava italiano. É claro que o hoteleiro havia a mandado.
Com a camareira segurando o guarda-chuva sobre ela, a esposa caminhou pela rua pavimentada até que estivessem debaixo de sua janela. A mesa estava lá, lavada de brilho verde na chuva, mas a gata se fora. Ela ficou subitamente desapontada. A camareira a olhou.
Ha perduto qualque cosa, Signora?
Tinha uma gata —, disse a moça americana.
Uma gata?
Si, il gatto.
Um gato? — a camareira riu. — Um gato na chuva?
Sim — ela disse — Debaixo da mesa. — E então: — Oh, eu queria tanto. Eu queria uma gatinha.
Quando ela falou em Inglês, o rosto da camareira ficou mais tenso.
Vamos, Signora — ela disse. — Devemos voltar para dentro. Você vai ficar molhada.
Acho que sim —, disse a moça americana.
Elas voltaram pela rua pavimentada e passaram pela porta. A camareira ficou do lado de fora para fechar o guarda-chuva. Quando passou pelo escritório, o proprietário curvou-se de sua mesa. A moça sentiu algo dentro de si ficar muito pequeno e apertado. O proprietário a fazia se sentir muito pequena, mas ao mesmo tempo, muito importante. Ela tinha um momentâneo sentimento de ser de suprema importância. Ela foi para as escadas.
Ela abriu a porta do quarto.
George ainda estava na cama lendo.
Foi embora.
— Pra onde será que ele foi —, ele disse, tirando os olhos da leitura.
Ela se sentou na cama.
Eu queria tanto — ela disse. — Não sei por que eu queria tanto. Eu queria aquela pobre gatinha. Não é nada divertido ser uma gatinha lá fora na chuva.
George estava lendo de novo.
Ela passou por cima da cama e se sentou em frente ao espelho da penteadeira, passou a olhar para si mesma através do espelho de mão. Ela estudou seu perfil, primeiro de um lado, depois de outro. Depois, ela estudou o lado de trás de sua cabeça e seu pescoço.
— Você não acha que seria uma boa ideia se eu deixasse meu cabelo crescer? — ela perguntou olhando novamente seu perfil.   
George olhou para cima e viu sua nuca, o cabelo cortado como de um garoto.
— Eu gosto do jeito que está.
Me cansei dele assim. — ela disse — me cansei de parecer um garoto.
George mudou sua posição na cama. Ele havia tirado os olhos dela desde que ela começou a falar.
— Você é bonita, droga —, ele disse.
Ela pousou o espelho na penteadeira, foi para a janela e olhou para baixo. Estava escurecendo.
Eu quero juntar o meu cabelo para trás bem apertado e macio e fazer um rabo de cavalo que eu possa sentir nas costas , ela disse. Eu quero uma gatinha para sentar no meu colo e ronronar quando eu acariciá-la.
Sério? — George disse da cama.
E eu quero comer na minha própria mesa de prata e quero velas. E eu quero que seja primavera e quero escovar meu cabelo na frente de um espelho e eu quero uma gatinha e eu quero umas roupas novas —.
Ai, cala a boca e vá ler alguma coisa —, George disse. Ele estava lendo de novo.
A esposa estava olhando pela janela. Estava bastante escuro agora e ainda chovia sobre as folhas das palmeiras.
De qualquer maneira, eu quero um gato —, ela disse, — Eu quero um gato. Eu quero um gato agora. Se eu não posso mais ter cabelo longo ou diversão, eu posso ter um gato.
George não estava escutando. Ele estava lendo seu livro. Sua esposa olhava pela janela onde a luz tinha caído na praça.
Alguém bateu na porta.
Avanti —, George disse. Ele desviou os olhos de seu livro.
Na entrada, estava a camareira. Ela segurava um gato tortoisesshell apertado contra si, que se balançava para descer por seu corpo.
Com licença —, ela disse, — o proprietário me pediu para trazer isso para a Signora.  


Autor: Ernest Hemingway
Tradução: Alana Campanha



Alana Campanha
Há milênios perdida nesta Terra, sobrevive de histórias feitas por seus habitantes. Ama escrever, criar tramas surreais e se aventurar pela literatura. Apaixonada por Doctor Who, sonha em viajar por esse mundo um dia desses.
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