Despropósito

10 abril 2017

Desde o momento em que você acorda, você sabe que o dia acabará tendo a miserabilidade de todos os outros. Você sabe, de algum modo, do modo mais profundo que alguém pode saber alguma coisa, que a fragilidade que te corrói por dentro todos os dias de sua vida é encoberta pelo seu terno social, o mesmo utilizado diariamente para responder de maneira afirmativa todos os tudo bem e bom dia jogados até você. Com o tempo, acaba percebendo suas respostas cada vez mais opacas, os cenários por qual passa seu dia — sua casa, a escola, o trabalho — vão perdendo a luminescência que uma vez tiveram. Vão ficando opacos também, e de repente, todos os diálogos que você ouve, as cenas que você nas ruas, as aulas que você assiste, perdem o foco, não por que a realidade exterior é de má qualidade, mas porque você já não consegue mais receber o sinal.
Sua percepção gentilmente se encontra com um desfalecimento interior como se ambos fossem bons amigos. Há algo errado dentro de você, mas não é como se pudesse fazer alguma coisa sobre; uma saúde em perfeito estado, uma vida destituída de qualquer problemática maior, contudo, mesmo assim, desde o momento em que você abre os olhos você sabe exatamente a sensação amarga no estômago quando sorrirá para alguém, sabe o exato conflito interior em imaginar o que aconteceria se o seu transporte público sofresse um acidente, o quão trágico seria ser obrigado a deixar este mundo. Porque talvez sua falta neste mundo se resuma a uma cadeira vazia num escritório.
Ao seu redor, você tenta encontrar algo em que se agarrar, algo em que possa culpar a irrealidade em que passara a viver. Tudo passa tranquilidade, contudo; quando o sol brilha, ele o faz lindamente, quando chove, ela o faz de maneira bela e soturna; o céu continua seu tom azul anil ou cinza do qual escreveu-se tantos poemas ingleses, as estrelas continuam escondidas atrás das nuvens, porém nada na escuridão parece esconder os monstros que você procura, pois todos eles estão dentro de você e, de algum modo, você sabe disso. Mas não é como se pudesse encontrá-los, apesar de estarem tão próximos. Você está perdido dentro de si mesmo e não há qualquer esforço que o faça sentir a mínima necessidade de fazer algo o quanto a isso.
Você tem sua casa. Seu trabalho. Suas aulas. Seu lazer. Tudo em seus devidos lugares, pedir mais por isso seria ganância. Talvez as pessoas passem por isso, talvez ao longo de mais alguns anos isso passe; você queria dizer, do fundo do coração, que sim, que deseja acordar algum dia em que honestamente iria enfrentá-lo com a morna felicidade de uma pessoa comum, que não iria sentir como se não houvesse uma razão para enfrentar o que já estaria perdido. Você quer acreditar que deseja essa mudança, que passe a ver a bela realidade que todos vêem.
Mas você não se importa. Não o suficiente.
Enquanto sente o vazio, se é que pode senti-lo de fato, você continua lavando, passando, vestindo seu terno para assegurar a todos o quão estável e cheio de esplendor você está. O dia está bonito, as pessoas bem-humoradas, sua mesa limpa.
Você está sempre sorrindo” um dia te dizem. Docilmente, na sutileza de uma folha ao vento, você faz seus olhos brilharem em concordância, pois é isso que eles querem de resposta.
Talvez se continuarem a dizer isso, você acabe se quebrando um pouco menos a cada vez que ouvir.   
  


Alana Campanha
Há milênios perdida nesta Terra, sobrevive de histórias feitas por seus habitantes. Ama escrever, criar tramas surreais e se aventurar pela literatura. Apaixonada por Doctor Who, sonha em viajar por esse mundo um dia desses.
0 Comentários | BLOGGER
Comentários | FACEBOOK

0 comentários:

Postar um comentário

 
© Tribo Letras, VERSION: 01 - janeiro/2017. Todos os direitos reservados.
Criado por: Maidy Lacerda
Tecnologia do Blogger.
imagem-logo