O que aconteceu com Sherlock?

15 março 2017

É comum pensar a série Sherlock da BBC como sendo entretenimento de alta qualidade. Ou, ao menos, antes da estreia da 4º temporada e, principalmente, do último episódio dela que em teoria, é o último episódio da série. The Final Problem (O Problema Final) sofreu tanto com críticas negativas de críticos e jornais quanto de fãs, fervorosos ou não. É claro, muitos ainda apreciaram o episódio, mas o fandom e crítica divididos fez até o episódio ser chamado de backlash pelos próprios roteiristas e criadores do show, Steven Moffat e Mark Gatiss.
Querendo ou não, a série já vinha sofrendo uma sacudidela desde à terceira temporada por conta, entre outras coisas, da imensa expectativa. Aqui, quero tentar discutir e entender o que aconteceu com o ápice do da série (praticamente 100% de aprovação no Rotten Tomatoes) até o seu fim (meros 63% de aprovação). Claro, é um artigo de opinião, então muito do que vier também virá sob minha ótica pessoal; e lembram-se, spoilers de todas as temporadas a frente!


Não existem consequências.
Sherlock pula de um prédio e finge estar morto para seus amigos? Mary Morstan, a esposa de John Watson, se revela como assassina e atira em Sherlock? Sherlock mata um homem? Alguém atira em John Watson? Bem, não precisa se preocupar, pois em todos os casos, nada acontece. Ainda me lembro, lá pra 2012 e 2013, quando ainda não havia assistido a série, havia fotos, teorias e memes espalhados em tudo quanto é lugar, e soube que o maior detetive do mundo havia se suicidado pulando de um prédio, mas havia sobrevivido de algum jeito. Foram dois anos de teorias, do facebook e tumblr infestados de textos, metas, diagramas cheios de explicações das mais variadas, até palestras foram feitas na época, o que surpreendeu até mesmo os próprios roteiristas. Mas então, quando a terceira temporada foi ao ar, de repente, as explicações acabaram não sendo importantes. O tão esperado reencontro entre Holmes e Watson virou sequências de humor; não que não tenha sido legal de assistir ou que a comicidade da série nunca tenha existido, entretanto, os fãs passaram dois anos ou imaginando ou produzindo ficções de alta carga dramática para preencher o reencontro, e são presenteados com humor.
É claro, é preciso levantar o fato de que isso foi inesperado, e apesar de não atender às altas expectativas, The Empty Hearse consegue segurar até presteza do show, mas quando, por exemplo, Sherlock e John estão presos num trem prestes a explodir e a tensão sobe a níveis inimagináveis… E era só uma brincadeira. Engraçado? Claro! Mas longe de ser corajoso.
No último episódio da terceira temporada, His Last Vow, novamente, temos um cliffhanger: A “volta” de Moriarty e temos também, um pouco antes, Sherlock assassinando Magnussen. Ao invés desses acontecimentos serem desenvolvidos na quarta temporada, eles são simplesmente esquecidos ou resolvidos em poucas falas. Matar um homem não teve nenhuma consequência real para Sherlock, graças à Mycroft. O escarcéu de Moriarty chamou muito atenção de nós do que do próprio Sherlock, que com um simples “Não encontro provas até o momento” segue para resolver outros casos e nunca mais volta de verdade ao Caso Moriarty.
Para quê trazê-lo de volta, então? Só para um fanservice de 5 minutos em The Final Problem?
E por falar em The Final Problem vemos um cliffhanger ser desperdiçado de novo, quando Watson leva um tiro no final do episódio anterior e a cena que esperávamos nem é mostrada; tranquilizante, eles dizem. Os acontecimentos da série passaram a estar ali para causar reações no público de imediato, mas não são trabalhadas ao longo prazo.

O deus Sherlock e a desvalorização dos demais personagens
Steven Moffat tem uma grande mania de transformar personagens em deuses. Em suas primeiras temporadas em Doctor Who (BBC) o Doutor passou passou a ser mostrado menos como um viajante anônimo e mais como uma lenda a quem você teme e reza. Em Sherlock, Moffat transformou o personagem excêntrico das primeiras temporadas num ser intocável e absoluto, no qual tudo gira em torno dele. Lestrade precisa dele, Molly e irene são apaixonadas por ele, Mary só se casou com John porque é parecida com ele e ele é tudo para John. Nenhum dos outros personagens tem um passado claro, a não ser Mycroft cujo passado é estreitamente ligado a ser irmão do Sherlock. John Watson, o co-protagonista, só existe a partir do momento que conheceu o detetive, como se nada em sua vida importasse antes daquele momento.
Mas a série chama Sherlock, é sobre o Sherlock
Frase das últimas cenas de Sherlock: “É sobre as aventuras”.
E enquanto todos na série são medidos a partir de sua ligação com Sherlock, óbvio que as personagens femininas também sofreriam com caracterizações ou desenvolvimento ruins, desde Irene Adler à Molly Hooper; e o que dizer de Mary Morstan, assassina treinada que precisa da proteção do detetive? Não é necessário transformar uma mulher numa espiã ou assassina só para ela não ser uma dona de casa entediante; escrever é mais do que dar características malucas em um personagem mundano, assim como limitar mulheres a serem apaixonadas pelo protagonista, não as permitindo serem nada além disso.  


Evolução de personagem vs. Descaracterização de personagem
Nas primeiras temporadas, conhecemos e nos apaixonados por Sherlock Holmes, o único detetive consultor do mundo. Excêntrico, faz experimentos malucos em sua cozinha, tem zero trato social, chicoteia corpos no necrotério e sai por aí pegando revólveres e atirando ma paredes quando está entediado. Segundo o próprio, um sociopata altamente funcional. Era esperado que a série acabasse sendo a respeito da humanização de Sherlock, de afastá-lo um pouco de um ser muito excêntrico e muito “sociopata” para alguém suscetível a emoções. John Watson foi o ponto de partida para essas emoções, o ponto crucial na qual existe a maior parte da humanidade sendo construída no detetive.
Porém, existe uma coisa complicada em mudar personagens desse tipo, aqueles cujo arco está justamente em humanizá-los, seja por serem vilões ou “antissociais”que não demonstram muito as emoções. Dependendo da situação, você pode humanizar qualquer personagem; Sherlock pode evoluir, sentir, emocionar-se. Três temporadas pavimentaram bem a ideia de Sherlock experimentando emoções que nunca se dera ao trabalho antes, desde dizendo que não tinha amigos até admitindo no natal o quanto Molly Hooper fora importante. São mudanças visíveis que ainda compactuam com a personalidade naturalmente excêntrica dele.
O último episódio da série, mostrou menos um detetive que ficou consciente às suas emoções e mais um homem um poço overwhelming de emoções. O mesmo cara que, há alguns meses, conseguiu pensar com razão até em momentos críticos como John Watson numa fogueira ou levando um tiro (ele desvendou a trajetória da bala enquanto estava morrendo!), esse, é o mesmo cara que teve um breakdown e quebrou um caixão com as mãos porque foi obrigado a mentir para Molly, o mesmo cara racional que no mesmo episódio, perdoa uma assassina estupradora só porque eles compartilham o mesmo sangue. Um abraço em Mycroft Holmes, o irmão que sempre o protegeu a sua maneira e tem Sherlock como aquilo que ele mais ama, ainda assim correria o risco de descaracterizar Sherlock (“Sherlock abraçando Mycroft!?”), mas se Moffat e Gatiss acham perfeitamente compatível o ápice emocional do episódio ser o abraço e o perdão a Eurus, quem somos nós para julgar?
Somos apenas os fãs e a audiência; audiência e fãs que permitiram a série a ser renovada.

A amizade de Sherlock e John se apoiou demais em subtexto
Uma série sobre as aventuras de Sherlock Holmes e John Watson no séc. XIX tinha como essência não apenas como Holmes é genial, mas a relação dos dois. É claro, numa série no qual figuram dois homens morando juntos e quase que codependentes era esperado, mesmo que desnecessário, uma piada ou outra. O problema foi quando as piadas quanto à natureza da relação deles ficaram recorrentes demais, a ponto da questão ser levantada até em momentos sérios. Uma coisa é fazê-los serem confundidos com casal uma vez ou outra, outra é além de fazê-lo vezes seguidas, fazer uma personagem como Adler afirmar que eles são sim um casal ou mostrar Sherlock triste na festa de casamento de John Watson. Além de trocentas outras cenas ou diálogos dúbios.
O problema foi os roteiristas escolheram deixar a dubiedade prevalecer. Poderiam deixar Sherlock como um celibatário que só não se envolve ou um assexual. Mas não. Sherlock não gosta sexualmente de mulheres, logo no piloto ele diz que elas não são sua área; tudo seria mais fácil se tivesse dito que pessoas não eram sua área; tivemos um episódio inteiro com Irene Adler que mais reforçou o discurso de mulheres não me atraem do que qualquer outra coisa, o mesmo episódio que basicamente disse que se apesar de ser lésbica ela se apaixonou por Sherlock, John também pode apesar de ser hetero.
Por que?
Por que uma cena nesse tom se nada aconteceria?
Sherlock não se interessa por sexo, mas sonha com Moriarty fazendo uma oral no cano de um revólver e dizendo-lhe para fugir com John. Basicamente, Moriarty teve mais tensão sexual com Sherlock do que a própria Irene Adler na 2 temporada. E tudo ocorreu na cabeça de alguém “que não se interessa”. Não é difícil entender porque tanta gente acreditava que o subtexto viraria texto, que a BBC acabaria tornando Sherlock e John num casal.
Quando se tocaram disso, Moffat e Gatiss reformularam visivelmente a relação entre Sherlock e John que conhecíamos até então. Eles cortaram o subtexto, o que deveria ter acontecido logo na segunda temporada. Resultado: a relação entre eles ficou fria.
Na quarta temporada, eles mal se falam no primeiro episódio. No segundo, estão brigados. No terceiro, quando Holmes tenta se matar para salvar o amigo e o irmão, John não parece incomodado com isso, assim como Sherlock fica mais incomodado em mostrar conforto a uma irmã assassina do que em resgatar John. E fica mais estranho quando no final os dois praticamente são mostrados como uma família, à vontade após uma temporada inteira de distanciamento.
Se você corta o subtexto e o que sobra são duas pessoas distantes, então meu amigo, deve ter algo de errado com a  sua série.

Vale dizer que apesar de tudo, nada desmerece o brilhantismo de duas temporadas louváveis que ganhamos nos primórdios da série ou das excelentes interpretações ao longo dos episódios. Sherlock foi um dos pontos altos da TV britânica e querendo ou não, ela rendeu importantíssimas problematizações sobre a questão da representação lgbt e das mulheres em produtos midiáticos. Goste os escritores ou não.





Alana Campanha
Há milênios perdida nesta Terra, sobrevive de histórias feitas por seus habitantes. Ama escrever, criar tramas surreais e se aventurar pela literatura. Apaixonada por Doctor Who, sonha em viajar por esse mundo um dia desses.
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