A História da sua Vida

28 fevereiro 2017

Algumas histórias passam por nós de maneira rápida, inexpressiva; outras, arrancam-nos risadas, sentimentos bons, o mero escapismo que precisamos após um dia conturbado cheio de trabalho e demandas sociais. Há aquelas que exigem de nós, pois a força da verdade embutida a elas precisa ser analisada, refletida, tomada por nós. Aí temos os grandes romances e contos que criticam a sociedade ou algum aspecto dela, ou a humanidade ou um aspecto dela; entre a arte do entretenimento e a arte do “fazer pensar” há um linha muito tênue. Há clássicos da literatura que transpassam sobre a guerra e o controle estatal, como 1984 e que foram best sellers em seu tempo; há também aqueles que a princípio apresentam uma história bem humorada e divertida, sem qualquer comprometimento a discutir questões sérias e que tornam-se clássicos, como Memórias de um Sargento de Milícias.  
Hoje, pessoas que não leem clássicos são consideradas incultas e aqueles que não leem best sellers são ditos que negam a literatura contemporânea popular. Ficamos, boa parte do tempo, nesses extremos. Porém, a literatura é muito mais do que ser posta em caixinhas — isso é livro comercial e não tem nada a acrescentar, aquilo é clássico mundial e só os inteligentes entenderão a mensagem , não raro, (certamente, é raro que não aconteça) os textos deslizam de uma caixinha a outra, de uma categoria a outra, de um gênero a outro. A discussão sobre mídia e fome em Hunger Games (“livro comercial”) é tão importante quanto a discussão do “perigo” da literatura e do conhecimento em Fahrenheit 451.
Mas, às vezes, não dá para resumir que a “boa” literatura precisa ser uma literatura “embargada”. A forma e expressão de um texto podem elevar tanto um romance ou conto quanto seu conteúdo; contudo, somos humanos e sentimos, o que faz com que certos textos acabem ultrapassando a barreira invisível de um “bom conteúdo” e/ou “boa “expressão”. Não há necessidade de um enredo complexo ou uma escrita mirabolante e experimental se você tiver o gatilho perfeito para a emoção. Pois em essência, é com o coração que escritores escrevem.
Story of your Life (A História de sua Vida) é um conto de Ted Chiang. Naves alienígenas pousam na Terra e agora, a principal tarefa do governo é tentar a comunicação. A narradora, que é linguista, é então chamada para desvendar a linguagem daqueles seres, dando início a uma investigação linguística que permeia o texto e levanta questionamentos acerca da linguagem humana, além de mostrar a importância universal da linguagem, aquilo que permitiu o que o conhecimento humano se desenvolvesse, permitindo a existência de todas as ciências e artes.

Acompanhamos uma competente investigação da língua daqueles seres, admirável por seu realismo. Enquanto grande parte das histórias que envolvem invasões alienígenas se pautam mais nas consequências desastrosas, no impacto disso em nossa sociedade, nas decisões militares emergenciais, A História de sua Vida se diferencia por escolher a trilha, muito provavelmente, mais óbvia caso uma nave aparecesse de verdade no mundo real: A tentativa de iniciar e manter comunicação. “Por que vocês vieram até nós?” “O que vocês querem?”.
Enquanto a narradora segue destrinchando o difícil idioma, seja o escrito ou o falado, porém, não é apenas essa investigação e obrigações para com os oficiais que vemos. A história é divida em partes, cada uma com poucas páginas, o que dá maior velocidade à leitura, e, sempre que lemos uma parte que trata dessa invasão alienígena com a narradora e demais profissionais lidando com a situação, nós acompanhamos cenas que se passam no futuro, da narradora já com uma filha.
Acompanhamos a vida inteira dessa filha pelos olhos da narradora, desde a pequenina bebê até a sua trágica morte. Logo nas primeiras páginas, a mãe reconhece o corpo da filha no necrotério e somos apresentados de antemão como a história acabará. Ela nos conta:
I know how this story ends; I think about it a lot. I also think a lot about how it began, just a few years ago, when ships appeared in orbit and artifacts appeared in meadows. The government said next to nothing about them, while the tabloids said every possible thing.
Eu sei como essa história termina; e eu penso muito nisso. Também penso como ela começou, há alguns anos quando naves surgiram na órbita e estranhos objetos apareceram nos campos. O governo praticamente não disse nada a respeito, enquanto os tabloides disseram todo o possível.  (tradução livre)

No tempo presente, a narradora desvenda a poderosa linguagem dos recém-chegados; no futuro, a mãe conta para sua filha tudo o que as duas  viverão. Nesse sentido, a história de um mundo visitado por alienígenas torna-se cenário para a história de uma filha que ainda nem nasceu. E vice-versa. Ambas as linhas narrativas se complementam, num abraço entre o lirismo e a original ficção-científica do autor. Em ambas esferas de narrativa, pode-se dizer que há suspense crescente, seja o destino das criaturas, seja o destino da filha, ou algo mais metalinguístico, como o porquê de estarmos acompanhando esses fragmentos no futuro.
O final se apresenta ligando ambas as linhas da narrativas de maneira trágica, formando uma das cenas mais tristes da ficção-científica, cujo otimismo advindo da ideia clássica do carpe diem só torna os últimos parágrafos mais dolorosos.
  
From the beginning I knew my destination, and I chose my route accordingly. But am I working toward an extreme of joy, or of pain? Will I achieve a minimum, or a maximum?
Desde o começo, eu soube qual seria meu destino, e escolhi meu caminho de acordo. Mas estou indo em direção a alegria ou a dor extrema? Obterei o mínimo ou o máximo? (tradução livre)
Após lê-lo, fiquei várias horas — dias — pensando não somente no conto, mas, principalmente, em seu final, naquele final esperado, que de tão esperado, machuca. Pensei na finitude de tudo, na busca de uma felicidade que, mesmo que alcançada, nunca será eterna. É pessimismo ou realismo acreditarmos que jamais teremos uma felicidade duradoura?
A literatura tem vários efeitos e consequências, verdades e desverdades da condição humana, denúncias de nossa sociedade, da religião, do mundo, ou somente nos dá a oportunidade de respirar em universos epicuristas. Às vezes, além dentre tudo isso, a centelha da emoção acaba por contaminar o que vemos ou lemos. Nesses pequenos instantes, tudo o mais cai em segundo plano, e deixamos de acompanhar a estrutura sintática ou do enredo, passamos somente a voar pelas palavras com o coração.
A Chegada  (Story of your life) não é apenas uma grande história de ficção-científica sobre o desconhecido e a linguagem. É sobre o amor e a perda, sendo este último aquilo que há de mais definitivo.       



Alana Campanha
Há milênios perdida nesta Terra, sobrevive de histórias feitas por seus habitantes. Ama escrever, criar tramas surreais e se aventurar pela literatura. Apaixonada por Doctor Who, sonha em viajar por esse mundo um dia desses.
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