A Lista Negra | Crítica do Livro

04 maio 2015



Título (original): Hate List
Autora: Jennifer Brown
Páginas: 272
Editora: Gutenberg

A Lista Negra - E se você desejasse a morte de uma pessoa e isso acontecesse? E se o assassino fosse alguém que você ama? O namorado de Valerie Leftman, Nick Levil, abriu fogo contra vários alunos na cantina da escola em que estudavam. Atingida ao tentar detê-lo, Valerie também acaba salvando a vida de uma colega que a maltratava, mas é responsabilizada pela tragédia por causa da lista que ajudou a criar. A lista com o nome dos estudantes que praticavam bullying contra os dois. A lista que ele usou para escolher seus alvos. Agora, ainda se recuperando do ferimento e do trauma, Val é forçada a enfrentar uma dura realidade ao voltar para a escola para terminar o Ensino Médio. Assombrada pela lembrança do namorado, que ainda ama, passando por problemas de relacionamento com a família, com os ex-amigos e a garota a quem salvou, Val deve enfrentar seus fantasmas e encontrar seu papel nessa história em que todos são, ao mesmo tempo, responsáveis e vítimas.


 Os Estados Unidos tem uma história conturbada em relação ao Bullying. A cada dia que passa, os casos aumentam, suicídios acontecem, massacres vez ou outra atacam tornando-se o foco midiático da vez, para logo depois sumirem no esquecimento, caindo na caixa de coisas normais. O livro A Lista Negra (Hate List, no original em inglês) é um baque de luta contra tudo isso. Há alguns anos, este livro era muito bem comentado e elogiado, e eu acompanhei por blogs e canais o quanto estava sendo bem recebido pelo público. A história já me era familiar por causa disso; uma garota enfrentando a volta ás aulas depois do massacre de estudantes, feito pelo seu namorado de acordo com os nomes escritos na Lista Negra que era ajudou a criar.
    Gosto de ler sobre pessoas passando por situações difíceis e reais. Não que eu não goste de uma boa fantasia – até por que eu adoro – mas é bom ver uma narrativa focada no psicológico conflitante de alguém depois de um fato traumatizante. É preciso que o autor desse tipo de obra tenha cuidado ao colocar os pensamentos deste no papel, para não cair na perigosa armadilha de um personagem que se culpa por tudo, o que estava se tornando comum, principalmente nos Yong Adult. Sim, este livro é YA e na época foi um ponto sério e instigante num mundo onde os únicos tipos de livros existentes eram os sobrenaturais ou distópicos.
    Conhecemos Valery Lefman, uma adolescente que está prestes a cursar o último ano do ensino médio, prestes a sua primeira aula. Poderia ser algo normal, se antes das férias não tivesse ocorrido um massacre na Praça de Alimentação da escola. Se seu namorado não fosse o assassino e se ela não tivesse ajudado a escolher as vítimas – mesmo que sem querer. Depois de passar por tratamentos dos seus ferimentos físicos e mentais, além de ter que aguentar as investidas de detetives que tem certeza que ela foi culpada, ela recomeça a frequentar as aulas, que para ela vira um verdadeiro campo de batalha, onde ela tem que enfrentar o ódio e indiferença da maioria, sejam alunos, professores ou o próprio diretor.
    Além de ter que lidar com as lembranças e conseqüências da tragédia, Valery ainda sente pelo suicídio de Nick, seu namorado. E ainda se sente menos que péssima com a relação deteriorada entre seus pais, que muito antes do massacre brigavam o tempo todo. Desse modo, tempos uma personagem em conflitos para todos os lados: na escola, em casa, na vida intima, nas amizades. Antes, ela destilava seu ódio na Lista Negra, escrevendo nomes e coisas que odiava; agora ela se sente menos que perdida, tendo apenas um caderno de desenho e o doutor Hieler para mantê-la no ar.
    Mais ou menos um pouco depois da metade, o livro tem uma estrutura em dois tempos. Vemos Valery no presente contando tudo sobre a volta as aulas, e uma no passado contando o que aconteceu no dia do massacre e depois dele. Nada fica confuso, pois as duas partes se entrelaçam muito bem. Nos começos de alguns capítulos vemos partes de uma reportagem de jornal sobre o massacre, nos colocando ainda mais dentro da história. De acordo com o que vê ou ouve, Valery narra algumas lembranças, as vezes boas, as vezes ruins, nos capítulos do presente, o que é natural, já que lembramos automaticamente de coisas de acordo com o nosso redor.
    Gostei muito dos personagens, principalmente do doutor Hieler, o psiquiatra com quem Valery faz consultas desde que saiu do hospital. Ele a ajuda bastante e sempre conseguia me tirar um sorriso do rosto, como um tio legal que sempre sabe o que dizer para te fazer sentir melhor, ou refletir sobre si próprio. A maioria dos personagens são bem construídos, isso é fato. A trama é naturalmente permeada de estereótipos norte-americanos; Garotas masculinas = más, líderes de torcidas = más, porém são coisas que ao longo da narrativa vão sendo desconstruídas. Disso, há Jessica Campbell, uma líder de torcida que apelidava maldosamente Valery, um clichê ambulante dos E.U.A, que é salva por ela quando estava prestes a ser morta por Nick. Salva e traumatizada, vemos uma transformação em Jessica, que me fez gostar dela demais.
    Nesse mar de tragédia, há algumas cenas no presente de quase alívio, sempre duas personagens conversando e rindo, o que me pareceu forçado e por vezes, repetitivo. A personagem Bea, pessoalmente, não me agradou muito; ela é o tipo de arquétipo que só serve para levantar a moral da protagonista e dar um pouco de poesia ao texto, com suas falas sábias enquanto parece estar lendo os pensamentos dela. É muito bonito Valery indo para seu estúdio pintar, mas Bea me era desagradável.
     Quero dizer que A Liste Negra não é apenas um livro sobre Bullying. É um livro sobre as conseqüências dele. E isso é a grande sacada, pois numa sociedade como a nossa, narrativas extensas sobre os atos explícitos do Bullying, nos daria sono por tão comuns que viraram. Mas o sofrimento, a devastação não apenas dos sobreviventes do massacre, mas dos familiares e amigos deles e dos mortos, nos toca. O livro é em primeira pessoa, mas conseguimos ver a tragédia em todos os personagens. O final me pareceu um pouco corrido, mas me tocou de um jeito que eu não esperava.
    A Lista Negra é um alerta para aquilo que devemos – e podemos – evitar. Tragédias ocorrem e não podemos mais fingir que cerimônias e reportagens enfatizando a união pós-tragédia seja o suficiente para parar este monstro que, antes de tudo, nem deveria ter nascido.


“Eu era tanto o monstro quanto a garota triste. Não conseguia separar os dois”. (P. 67).


     
Alana Campanha
Há milênios perdida nesta Terra, sobrevive de histórias feitas por seus habitantes. Ama escrever, criar tramas surreais e se aventurar pela literatura. Apaixonada por Doctor Who, sonha em viajar por esse mundo um dia desses.
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1 comentários:

  1. E aí, Alana! Como eu já respondi a Tag e a Vanessa não curte anime, essa é para você: http://sendoumaotaku.blogspot.com.br/2015/05/tag-i-love-animes.html Responda a Tag! Beijos!

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